Porque é que as empresas não respondem a candidatos, e o que isso lhes custa
Uma pessoa vê um anúncio, lê-o com atenção, adapta o currículo, escreve uma carta, carrega os documentos e clica em enviar. A partir desse momento, passa a esperar. Uma semana. Um mês. E depois deixa de esperar, porque percebeu que não vai receber nada.
Chama-se ghosting no recrutamento, e é hoje uma das experiências mais comuns de quem procura emprego. Nas auditorias que fazemos, é também o percurso onde as empresas têm, quase sempre, a nota mais baixa. Empresas com um atendimento ao cliente exemplar deixam candidatos sem uma linha durante meses. E não sabem que o fazem.
Porque acontece
Raramente é má intenção. É um conjunto de pequenas ausências que se somam.
Ninguém é dono do silêncio. O recrutador trata de quem avança. Quem não avança fica num estado intermédio que não é de ninguém: nem rejeitado, nem em processo. E o que não é de ninguém não se faz.
A plataforma dá a ilusão de resposta. O ecrã “candidatura recebida” parece um acuse. Não é. É uma confirmação técnica de que o ficheiro chegou. O candidato sabe a diferença; a empresa muitas vezes não.
Dizer “não” custa. Comunicar uma rejeição é desconfortável, e a tentação é adiá-la até deixar de ser preciso. O processo fecha, o cargo é preenchido, e a mensagem que ninguém queria escrever nunca é escrita.
O processo é cancelado e ninguém avisa. Acontece mais do que se pensa: a vaga é congelada, o projecto é adiado, a decisão muda de mãos. Quem estava no processo só sabe se perguntar. E, em regra, ninguém pergunta duas vezes.
O que custa
O primeiro custo é o mais óbvio e o mais ignorado: o candidato de hoje é o cliente de amanhã. Quem se candidata a uma empresa gosta dela, ou pelo menos respeita-a. Depois de três meses de silêncio, deixa de gostar. E conta. A um amigo, à família, num jantar, num comentário público. Uma empresa que investe em publicidade para ganhar clientes está, ao mesmo tempo, a perdê-los um a um na caixa de entrada do recrutamento.
O segundo custo é a reputação como empregador. Os melhores candidatos têm alternativas e escolhem. Uma empresa conhecida por não responder deixa de receber as candidaturas que mais lhe interessam, sem nunca perceber porquê, porque essas pessoas simplesmente não se candidatam.
O terceiro é interno. Uma organização que não responde a quem quer entrar raramente responde bem a quem já está dentro. O silêncio é um hábito, e os hábitos não escolhem a quem se aplicam.
O que faz uma empresa que responde
Não é complicado, e é exactamente por isso que impressiona.
- Acusa a recepção com uma pessoa, não só com um ecrã. Uma mensagem automática nas primeiras horas, e uma linha escrita por alguém nos primeiros dias, com o nome do candidato.
- Diz o que vai acontecer. Quantas fases, em que prazos, quem contacta. O candidato que sabe o que esperar não fica ansioso nem escreve a perguntar.
- Comunica todas as decisões, incluindo as negativas. Uma rejeição bem escrita, com uma frase de motivo e uma porta aberta, é lembrada com mais respeito do que muitas contratações.
- Avisa quando o processo muda. Se a vaga é cancelada ou adiada, quem estava dentro é o primeiro a saber, não o último.
- Trata o tempo do candidato como trata o seu. Sem tarefas de horas sem aviso, sem entrevistas marcadas e desmarcadas, sem pedir três vezes o mesmo documento.
Como saber se a sua empresa responde
A pergunta parece simples, mas quase nenhuma direcção a consegue responder com certeza. O sistema de recrutamento mostra quantas candidaturas entraram; não mostra quantas ficaram sem resposta, nem quanto tempo esperaram, nem que tom tinha a mensagem que receberam.
A única forma de saber é fazer o que o candidato faz: candidatar-se. Uma candidatura real, a uma vaga real, e observar o que acontece durante trinta dias. É um dos seis percursos da Auditoria de Cortesia Empresarial, e é aquele em que a diferença entre o que a empresa pensa que faz e o que faz de facto costuma ser maior.
Responder a quem se candidata não é uma cortesia extra. É a primeira impressão que a empresa dá a alguém que a escolheu antes de ela o escolher a si.
Jorge Humberto Gameiro é o fundador da Etiquette360online e conduz pessoalmente cada auditoria.