Ensinar boas maneiras sem apontar o dedo: é a raposa que erra, nunca a criança · Etiquette360online

Ensinar boas maneiras sem apontar o dedo: é a raposa que erra, nunca a criança

Há uma cena que qualquer pai ou educador reconhece. A criança faz uma coisa mal, um adulto diz “isso não se faz”, e a criança baixa os olhos. O gesto errado pára, mas o que fica é a vergonha, não a aprendizagem. Na semana seguinte, o mesmo gesto volta. Corrigir não é ensinar.

A vergonha não ensina

Quando uma criança é apanhada em falta, a atenção dela vai toda para a sensação de ter sido apanhada. Não sobra espaço para perceber o que devia ter feito, nem porquê. É por isso que a repreensão funciona tão mal com as boas maneiras: o que queremos ensinar é precisamente a reparar no outro, e a vergonha faz a criança fechar-se sobre si própria.

A alternativa não é deixar passar. É mudar quem erra.

Que erre a personagem, não a criança

As histórias existem para isto há milhares de anos. Uma personagem que faz o que não devia, percebe, e corrige. A criança vê o erro de fora, ri-se, e leva a lição sem ter sido ela a ser corrigida. Quando mais tarde está na mesma situação, lembra-se da personagem, não da repreensão.

Foi este o princípio que segui ao escrever Kai e a Bússola 360. O Kai é o menino que recebe a bússola, mas quem erra é o Nino, uma raposa de orelhas em pé que apronta uma a cada minuto: interrompe, não espera pela vez, esquece-se de agradecer. E corrige-se sozinho, sem que ninguém o castigue. O livro nunca aponta o dedo; acende luzes. Cada boa maneira que o Nino descobre é uma luz a mais na bússola, até às dezasseis.

Três gestos que funcionam em casa e na escola

Não é preciso ter o livro para usar o método. Três coisas que qualquer adulto pode fazer:

  • Dar nome à boa maneira, não ao erro. Em vez de “não interrompas”, diga “estás a ouvir até ao fim, é isso?”. A criança fica com o nome da coisa certa.
  • Deixar a criança corrigir-se. Uma pausa e um olhar dão, muitas vezes, tempo para que ela própria repare. A correcção que vem de dentro fica; a que vem de fora passa.
  • Perguntar “e tu, o que farias?”. Depois de uma história, de um desenho animado, de uma cena na rua. A pergunta transforma a boa maneira numa escolha da criança, e não numa regra dos adultos.

O mantra, a pergunta e o jogo

Cada capítulo do livro-base fecha com três coisas pensadas para pais e professores: um mantra rimado, fácil de decorar e de repetir no dia seguinte; uma pergunta para conversar em família, sempre a mesma, “e tu, o que farias?”; e um pequeno jogo de procura na imagem, que faz a criança voltar à página e reparar nos pormenores. Numa sala de aula, cada capítulo é uma sessão de cidadania com a actividade já incluída.

A boa maneira é universal; a forma é de cada lugar

Depois do livro-base vêm vinte e quatro viagens, uma por país. Em cada uma, o Kai descobre a forma que uma boa maneira toma noutro lugar: os sapatos à porta no Japão, o “é servido?” em Portugal, o chá de menta em Marrocos, segurar a porta no Canadá. Nunca como folclore nem caricatura, mas como vida quotidiana, uma entre muitas formas de respeitar. É uma maneira de ensinar, ao mesmo tempo, boas maneiras e curiosidade pelo mundo.

O primeiro volume, o do Japão, está disponível gratuitamente nas nove línguas, com as páginas de colorir e o póster das dezasseis luzes. É uma boa forma de experimentar o método antes de decidir se ele serve a sua casa ou a sua turma.

Jorge Humberto é o fundador da Etiquette360online e autor da colecção infantil Kai e a Bússola 360.

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