As boas maneiras aprendem-se antes dos oito anos · Etiquette360online

As boas maneiras aprendem-se antes dos oito anos

Passei quase vinte anos a ensinar boas maneiras a adultos: directores, diplomatas, equipas de loja, recepcionistas. E há uma coisa que se repete em quase todas as salas de formação. Não é a falta de vontade; é o esforço que custa a um adulto mudar um gesto que faz desde criança. Cumprimentar antes de pedir. Ouvir até ao fim. Dizer obrigado a quem serve. Quem aprendeu isto aos seis anos fá-lo sem pensar. Quem não aprendeu, aos quarenta, tem de pensar de cada vez.

O que se aprende cedo fica

Entre os cinco e os oito anos, uma criança está a construir o mapa de como se trata os outros. Não o faz com regras; fá-lo com exemplos, repetição e histórias. O que vê em casa, o que ouve na escola, o que lhe lêem à noite. Nessa idade, uma boa maneira não é uma obrigação, é uma descoberta: percebe-se que segurar a porta faz a outra pessoa sorrir, que esperar pela vez evita a zanga, que dizer o nome de alguém é diferente de dizer “ó”. E uma descoberta, ao contrário de uma ordem, não se esquece.

É por isso que a educação para a cortesia tem de começar cedo. Não porque as crianças tenham de ser pequenos adultos formais, mas porque os gestos que se instalam nesta idade são os que, mais tarde, ninguém tem de corrigir numa sala de formação.

Boas maneiras não são rigidez

Há uma ideia antiga de que ensinar etiqueta a crianças é ensiná-las a estar quietas e caladas. É o contrário. A boa maneira é a forma prática de uma coisa muito simples: pôr-se no lugar do outro. Uma criança que aprende a esperar que o outro acabe de falar está a aprender a ouvir. Uma criança que aprende a partilhar o que tem está a aprender a reparar em quem não tem. Uma criança que aprende a pedir desculpa está a aprender que os seus gestos têm efeito nos outros.

Nada disto é folclore nem cerimónia. É respeito, na versão que uma criança de seis anos consegue praticar hoje.

Como se ensina sem impor

A pior forma de ensinar uma boa maneira é apontar o dedo. “Não se faz assim” fecha a conversa e deixa a criança com a vergonha em vez da aprendizagem. A melhor forma é a mais antiga de todas: a história. Uma personagem que erra, que se corrige, que descobre que há outra forma de fazer. A criança ri do erro, percebe a correcção e leva a boa maneira sem ter sido ela a ser corrigida.

Foi com esta ideia que escrevi para crianças aquilo que ensino a adultos. Em Kai e a Bússola 360, o Kai é um menino que recebe uma bússola que não aponta o Norte: aponta para o que o outro sente. Ao lado dele viaja o Nino, uma raposa que apronta uma a cada minuto e se corrige sozinha. É o Nino que erra, nunca a criança. Cada boa maneira descoberta acende uma luz; são dezasseis, e quando estão todas acesas revela-se um segredo.

Dezasseis boas maneiras, quatro famílias

As dezasseis luzes do livro-base organizam-se em quatro famílias, que são, no fundo, as quatro situações em que uma criança tem de decidir como tratar alguém:

  • O encontro: cumprimentar, olhar nos olhos, dizer o nome, despedir-se.
  • As palavras: pedir por favor, agradecer, pedir desculpa, não interromper.
  • A partilha: esperar pela vez, dividir, emprestar, convidar quem está de fora.
  • O cuidado: segurar a porta, ajudar quem precisa, cuidar do que é de todos, reparar em quem está triste.

São as mesmas quatro famílias que trabalho com adultos numa formação de atendimento ao público. A diferença é que, com crianças, não há nada para desaprender.

Por onde começar em casa

Não é preciso um programa. É preciso uma boa maneira de cada vez, repetida com naturalidade, e uma história ao deitar que a mostre em acção. Escolha uma luz esta semana, por exemplo “ouvir até ao fim”, e repare nela em voz alta sempre que a criança a pratique. Na semana seguinte, outra. Em quatro meses, estão as dezasseis acesas.

Quem ensina protocolo a adultos sabe o preço de chegar tarde. Com as crianças, chega-se a tempo.

Jorge Humberto é o fundador da Etiquette360online e autor da colecção infantil Kai e a Bússola 360, disponível em nove línguas.

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